Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências.
Além desse blog, escreve duas páginas dominicais no Jornal do Dia.
O SACERDOTE MANIQUEU E O CARÁTER DE VALADARIZINHO
20/10/2018
O SACERDOTE MANIQUEU E O CARÁTER DE VALADARIZINHO

(Maniqueu e o oportunista)

Valadares Filho deve saber o que significa a palavra maniqueísmo. Ele lê jornais, apenas, e nas colunas políticas a palavra surge vez por outra. Quase com certeza, Valadares Filho, superficial em gestos, em atitudes, e em conhecimentos, nunca ouviu falar em Maniqueu, uma espécie de profeta, entre aqueles que iam surgindo, desde a virada do primeiro milênio.

Maniqueu, na velha Pérsia, se fez sacerdote da crença por ele mesmo criada, que dividia rigidamente o mundo em duas partes: a virtuosa, imersa na santidade, se caracterizaria pela devoção extrema, e a intolerância absoluta em relação à outra parte, onde estavam os que não eram maniqueístas.

O maniqueísmo é exatamente isso: a visão de um lado totalmente bom, contrastando com o outro lado totalmente ruim. Todos os que se convertessem ao maniqueísmo passavam a ser iluminados de repente, como seres portadores da virtude e da razão.

Valadarizinho não é exatamente um maniqueísta, ele nem chega a ser uma versão pior e deturpada daquela crença. Trata-se, apenas, de um visceral oportunista. O maniqueísmo cultivava alguns valores, o oportunismo é a decadência do caráter, a capacidade sebosa de acomodar-se em qualquer canto, dele fazendo-se defensor entusiasmado, até que a ambição pessoal começa a enxergar em outros cantos, possibilidades maiores de ampliar os desejos que rodam no círculo miúdo do próprio umbigo.

O oportunismo é a negação da coerência, a adesão plena ao cinismo e à hipocrisia.

Valadarizinho acomodou-se muito bem numa aliança com o PT, quando aquele partido estava em plena ascensão, foi, na Câmara, entusiasmado defensor do projeto de poder petista, cobriu-se com a bandeira do Partido Socialista Brasileiro, porque o socialismo era então uma forma de adaptar-se às circunstâncias, e tirar vantagens. Ganhou cargos, conseguiu recursos, direcionou muito deles para dar apoio às festas de amigos. Valadarizinho é um jovem festeiro, circula pelas noites brasilienses e aracajuanas, com a despreocupação de quem coloca em primeiro lugar os prazeres da vida. O cargo de deputado federal lhe serve, perfeitamente, como moldura para a vaidade e ambição do jovem, cujo berço lhe facilitou a trajetória política. Seria ele um péssimo parlamentar? Não, absolutamente não, apenas mais um, entre centenas que não descolam das ¨boquinhas¨.

Em 12 anos de mandatos, Valadarizinho já fez mais de 30 viagens ao exterior, todas custeadas com recursos públicos. Qual o benefício dessas viagens? Unicamente para ele próprio, o prazer de curtir Nova Iorque, Londres, Paris, etc. Nada diferente do que fazem todos os outros, e Valadares Filho é mais um, entre tantos acostumados, habituados curtidores dos privilégios, que o nosso deturpado conceito de cargo público tanto possibilita. Assim, Valadares Filho também foi ávido em conseguir cargos em comissão para parentes e amigos. Agora, enrola-se um pouco para explicar porque alguns desses comissionados por ele, envolveram-se em negócios não muito lícitos, criando empresas fantasmas, recebendo verbas do gabinete onde estavam lotados.

Valadarizinho sempre distribuiu fartamente CCs com o seu grupo, aliás, restrito, mas, muito guloso por cargos. Nos governos de Jackson, andava com uma pasta debaixo do braço, era a relação de cargos disponíveis, e para eles apontando os seus indicados. Indicou Secretários de Estado, lotou, com parentes e amigos os cargos mais atraentes. Para os parentes reservou os melhores. E não cessava de elogiar Jackson. Escorou-se em Belivaldo quando precisou de votos, principalmente em Simão Dias, onde agora, sem Belivaldo, e contra ele, foi fragorosamente derrotado. Participou, junto com mais dezenas de políticos e empresários do lobby feito para que ocorresse a exoneração dos delegados, os mesmos aos quais foi agora implorar o apoio. Quem ouviu alguma manifestação de Valadarizinho quando os delegados foram exonerados por Jackson?

Quando o barco petista começou a fazer água, Valadarizinho entendeu que era o momento para escapar do naufrágio. Votou pelo impeachment, e começou a elogiar Michel Temer, não se esquecendo da aproximação estratégica com o deputado André Moura e o Senador Amorim. Queria, então, ser prefeito de Aracaju. Já podia romper com Jackson, porque tinha garantidos os cargos federais que ganhou de Temer, com anuência de André Moura e Amorim.

Antes, com Jackson ao lado, com o PT ao lado, com Déda ao lado, com Edvaldo Nogueira ao lado, fora candidato pela primeira vez a Prefeito de Aracaju, e derrotado por João Alves.

Nas campanhas em que foi derrotado, exaltou os novos aliados e desceu a lenha nos antigos.

Tendo o controle total da CODEVASF, encheu os gabinetes com parentes muito próximos, além de amigos. Nesse tempo, para prestar serviços aos novos donos do poder, não perdia oportunidade para desancar o PT e os petistas, dos quais queria distância. Era, então, um denodado defensor do governo de Temer, que apenas começava.

O oportunismo é exatamente isso, a capacidade de ter, com cinismo e hipocrisia várias faces, e em nenhum momento demonstrar vergonha.

Pensou depois em ser candidato ao governo, e foi bater às portas de André e Amorim. Sem êxito, reforçou seu oportunismo, e deixou o barco também meio afundado de Temer, esperando, com essa atitude, cair no gosto do povo sergipano.

Tornou-se candidato ao governo ao lado do pai senador, um político que honrou os mandatos que exerceu, e disputava a reeleição. Perderam os dois no primeiro turno, e agora Valadarizinho com os horizontes um tanto desfavoráveis ao seu oportunismo, se foi escorar no delegado que se fez senador, derrotando o pai dele, e que, por ingenuidade política ou desinteligência mesmo, agora faz campanha para o oportunista que antes criticara.

Valadarizinho, mais uma vez oportunista, enrolou precavidamente a bandeirola do seu Partido Socialista, e foi em busca do candidato Bolsonaro, imaginando beneficiar-se daquela onda de votos que inunda o Brasil. Nada conseguiu, e anda pedindo aos amigos que coloquem a foto dele junto a do capitão. Valadares Filho acredita na metamorfose, e bota fé nos seus disfarces, e, por isso, transforma-se agora num personagem tragicômico e confuso, na busca inútil do caráter que sumiu, ao longo da sua trajetória de oportunismos.


O BRASIL DEPOIS DA ELEIÇÃO

(Bolsonaro na encruzilhada. Brasil ou mercado financeiro?)

Na reta final desta inimaginável disputa pelo poder que estamos a assistir, mostram, todas as evidências, e os números das pesquisas igualmente corroboram, que o deputado Bolsonaro sairá vencedor, salvo algo inteiramente imprevisível, com uma margem de votos jamais alcançada. O fenômeno que assistimos estaria a merecer uma análise isenta a ser feita quando as emoções derem espaço à reflexão.

É possível construir a tentativa de uma interpretação sumaria do que ocorreu, apenas com um fraseado curto: Bolsonaro surgiu, num vazio de credibilidade, como o único político, embora extremista, que catalisou e expandiu a indignação e a inconformidade do povo brasileiro, e com elas elaborou o seu discurso.

O discurso, na sua essência, e também nos seus disparates, mantem uma conexão linear com as inquietudes que se vão acumulando na vida dos brasileiros, sejam eles pobres ou ricos.

Na raiz de tudo, está aquela equação irresolvida, e cuja solução seria a síntese possível entre duas visões sociais que se antagonizam, e se recusam a dialogar em busca de uma diretriz para um projeto de Brasil, que tivesse o suporte da expressiva maioria do povo brasileiro.

Bolsonaro tem uma visão tosca dos problemas do país, derivando para o escândalo em relação aos costumes, quando o espanto deveria ser dirigido à exclusão social, que faz do Brasil o país mais desigual do mundo. Quando foram trazidas ao debate questões que entraram na pauta do primeiro mundo ainda na década dos anos sessenta, e nelas passamos a nos envolver com aquele atraso característico que permeia o subdesenvolvimento, afloraram, então, as reações fortes dos que protestavam, exibindo bíblias e bandeiras, num contraponto aos excessos dos que banalizavam comportamentos públicos, que, em qualquer parte do mundo mereceriam reprovações. E por aí nos perdemos, enquanto a realidade econômica e social à nossa volta, nos desafiava para ser enxergada, analisada e entendida.

O que poderia ter alimentado um debate saudável, transformou-se no insuperável conflito que nos levou à uma extrema radicalização, porta escancarada para as grandes tragédias institucionais.

O demagógico populismo com tintura forte de extrema direita, exercitado por Bolsonaro, o fez conseguir votos até entre beneficiários do programa Bolsa Família, que, quer queiram ou não, é o mais eficaz projeto já posto em prática em qualquer parte do mundo, para erradicar a fome e escolarizar as crianças.

O mercado financeiro aderiu em peso a Bolsonaro, e nele apostou todas as suas fichas. Este é o mais comprometedor dos apoios, porque impõe a contrapartida da submissão aos caprichos do restrito universo dos bancos, das Bolsas, e dos Fundos de Investimentos, ferramentas do capital financeiro internacional, que comanda os rumos da economia planetária, e o faz segundo os interesses fixados somente no lado rico do planeta.

Thomas Piketty no seu livro O Capital no século XXI caracterizou essa predominância do capital financeiro como uma ¨sociedade hiperpatrimonial¨, ou ¨sociedade de rentistas¨, que faz um país como o nosso ter 50% da riqueza nacional concentrada nas mãos de 1% da população.

Esse sistema tentacular das finanças faz circular pelo mundo, numa ciranda de especulação, a soma astronômica de mais de 700 trilhões de dólares, que vai crescendo a cada dia, enquanto o Produto Bruto de toda a economia mundial anda em torno de 100 trilhões de dólares. Esse modelo aproxima-se da exaustão e do colapso, o que poderá repetir, em escala mundial, a crise de 2008, nascida com a falência do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos.

Distantes, muito distantes do mundo do champagne e caviar, estão os esmagados pelo desemprego, os que protestam contra a insegurança, contra a subida dos preços do diesel, e do gás de cozinha, os que se espremem nos transportes coletivos sucateados, todos os que têm medo da reforma previdenciária, e que estão com salários comprimidos pela crise que se arrasta, e os que, tristemente e desesperançados, vão cerrando as portas das suas empresas.

Bolsonaro não os atenderá, seguindo, como promete, a cartilha da ¨sociedade hiperpatrimonialista¨ que Paulo Guedes, o futuro Ministro da Fazenda representa.

 Se depois de ouvir os resultados das urnas no próximo dia 28, Bolsonaro resolver adotar um discurso conciliador de presidente do Brasil, conclamando para a pacificação, e condenando a odiosidade, poderia também libertar-se das rédeas do mercado financeiro, começando por decidir retirar 100 bilhões de dólares dos 400 bilhões do Fundo Soberano. Essa dinheirama gigante é, na verdade, um aval que concedemos aos especuladores. Essa montanha de dólares empregados diretamente na produção, permitiria reativar as 14 mil obras paralisadas no país, e desenvolver programas habitacionais e de infraestrutura. Isso feito, no decorrer de dois anos reduziríamos à menos da metade o nível do desemprego.  Se poderia ir além, somando aos dólares do Fundo Soberano   aquelas centenas de bilhões que os bancos reservam para aplicação no mercado financeiro, colocando-os, compulsoriamente, a serviço da economia produtiva.

Mas aí o capitão reformado do Exército brasileiro que bateu continência à bandeira americana, em posição deploravelmente submissa, teria de enfrentar o mau humor de Wall Street, principal núcleo do poder financeiro mundial, que se abriga exatamente sob aquela bandeira, e logo espalharia sua insatisfação pela Avenida Paulista.

Mas o empresariado brasileiro iria respirar um novo oxigênio, e a enorme massa dos brasileiros empobrecidos teria oportunidades de trabalho. Por outro lado, começaria a ser contida a desindustrialização, com o mercado revigorado. Ao mesmo tempo, se afastaria um clima de confronto e tumulto, abrindo aos brasileiros a perspectiva de unirem-se em torno de um projeto efetivamente nacional.

Se ao contrário, o capitão preferir ampliar os privilégios,  submeter-se ao modelo de Donald Trump, privatizando ou entregando a Petrobras junto com o pré-sal,  e mais ainda o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, além de  desprezar os direitos civis, minimizar as questões ambientais, não valorizar quem trabalha e produz, a insatisfação continuará, e para contê-la saindo às ruas será preciso recorrer à repressão. Aí, a esperança de agora se desfará na turbulência.

 

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