Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências.
Além desse blog, escreve duas páginas dominicais no Jornal do Dia.
NA POLÔNIA A ERA DO CARVÃO RESSUSCITA
02/12/2018
NA POLÔNIA A ERA DO CARVÃO RESSUSCITA

Vai acontecer na Polônia um evento que reunirá toda a indústria carvoeira e os seus apoiadores. O maior propagandista do conclave cinza-fumaça é o deslustrado presidente Donald Trump. Ele está convocando céus e terras para que se façam presentes ao meeting polonês.

Carvão e capitalismo têm uma base comum.  Um, viabilizou o outro, e se sustentaram mutuamente, desde o nascer da revolução industrial no século dezoito, até um momento em que se fez a inevitável separação, consequência do dinamismo inerente ao capitalismo, que o torna sempre renovado, e em simbiose com a evolução da ciência e da tecnologia.

Na Inglaterra, as cidades industriais onde estavam aciarias, usinas térmicas, trens pelos trilhos cada vez mais tentaculares, seus navios cruzando os sete mares, fábricas têxteis, e tantas outras, o carvão era essencial,  o combustível que movia o mundo, que acelerava o progresso, a própria razão da montagem do Império Britânico, ¨onde o sol nunca se punha¨. Nas minas de carvão milhares de crianças, crianças mesmo, com menos de 14 anos, mourejavam, pela facilidade que tinham de moverem-se através do labirinto de tuneis, como se fossem caminhos de rato. O fumaceiro cobria as cidades industriais, a mortalidade infantil era absurda, a tuberculose dizimava os adultos.


Essa realidade social trágica, inspirou o pensamento socialista, baseado no respeito à pessoa humana, no fim da exploração selvagem do homem pelo homem, então, Marx e Engels escreveram, no Manifesto Comunista: ¨Um espectro ronda a Europa, é o espectro do comunismo. Tudo o que é sólido dissolve-se no ar¨. Eles esperariam que a revolução para instalar a ¨ditadura do proletariado¨ começasse pela Alemanha, a Inglaterra, países industrializados, e onde fortalecia-se o movimento sindical.

O que fez o capitalismo? Foi aposentando o carvão, substituindo-o por um outro combustível fóssil, o petróleo, menos poluente, e começou a por em prática uma legislação social, que não aquietou o descontentamento, mas arrefeceu o ânimo radical revolucionário. As desigualdades, as divergências, passaram a caber no âmbito da politica, ampliada com a extensão maior da democracia social.

Agora, a questão ultrapassa o espaço social e relaciona-se mais intimamente com a calamidade climática que nos ameaça, ou melhor, já nos atinge, inviabilizando a longo prazo a vida no planeta. Surge uma nova economia, o capitalismo climático, contra o qual reagem os carvoeiros desesperados,  cujas minas na Inglaterra  estão sendo fechadas e nos Estados Unidos, Trump começa a reativá-las, dando sobrevida a uma indústria que espalha a pestilência pelos ares, e inviabiliza a vida em cidades chinesas, por exemplo, onde as pessoas não saem às ruas sem o uso de máscaras. Mas não é só o carvão, que está à frente desse movimento de volta ao passado,  a ele se juntam petroleiras, a indústria automobilística ultrapassada pela tecnologia, todo o resquício da engrenagem econômica mundial que não se atualizou, não correu na vanguarda, num processo de adaptação que é essencial à sobrevivência do planeta, onde esperam viver os descendentes da nossa espécie, que causa a catástrofe, e dela se tornará vitima, também.

Uma visão  teológica, talvez, um disfarce cínico para recusar a mudança, cria a falsa e presunçosa ideia de que Deus acompanha a nossa desordem, e virá conserta-la no momento crucial em que a vida se inapropriar na terra, ou seja, quando as florestas estiverem todas devastadas, o  mar transformado numa cloaca gigantesca, o céu cinzento e as nuvens despejando  chuva ácida. O fim será postergado, e Deus viria em nosso socorro, fazendo o que deixamos de fazer: limpando os mares, clareando os céus, retirando a carga de carbono da atmosfera, e nos dando de presente algum combustível  limpíssimo, com o qual  viria a solução energética que não conseguimos criar para assegurar o futuro.

Mas o que se esperaria que Deus viesse fazer já está sendo feito, aqui mesmo, pelas suas próprias criaturas. As energias renováveis se expandem, a preservação de matas, de rios, de mares, se torna coisa prioritária em dezenas de países, a eletricidade começa a mover as frotas de veículos, tudo muda para melhor. Mas, surgem as resistências, os interesses contrariados, o desprezo da terra mãe e do nosso futuro, em troca de um presente suicida, todavia, com mais lucros para uma elite desumanamente ególatra.

Donald Trump e seus parceiros continuarão erguendo altares de intolerância ao atraso, à ignorância, ao criminoso descuido com a casa onde vivemos, e da qual não temos sabido zelar adequadamente.


A mudança climática é absolutamente real e visível. Está aqui perto, entre nós, sendo sentida e vivida dentro das nossas escassas fronteiras sergipanas. No Sul, de Itaporanga, passando pelo Arauá, o Boquim, a Estancia, Umbaúba, Cristinápolis, Indiaroba, de onde sumiu a exuberância da Mata Atlântica, riachos e rios, lagoas e brejos secaram, a pluviosidade média desabou para quase a metade do que era. No sertão, a capa protetora da terra, que é a caatinga, tendo virado carvão, desnudou o chão seco, sobre o qual, em alguns pontos, nesses últimos sete anos não chegou a cair uma media de chuva próxima do que aquela que se registrava anualmente.

É pena que o presidente eleito Jair Bolsonaro tenha prometido nos retirar do Acordo de Paris e rejeitado a reunião de chefes de Estado e de Governo de todo o mundo, que, ao lado de cientistas, de representantes de populações já duramente afetadas pela catástrofe ambiental, renovariam, no Brasil, os compromissos com a responsabilidade ambiental.

Mas, felizmente, Bolsonaro parece ter ouvidos para as vozes da sensatez, e dá sinais de que poderá rever a anunciada decisão, como também parece, ter a tendência, agora, de reconsiderar o desastre político-econômico que seria o gesto, para nós absolutamente irrelevante, de transferir a Embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, imitando os Estados Unidos sob Trump, e a Guatemala, sob um sabujo qualquer.

Qualquer argumento que se apresente contra a consciência ecológica, será puro disfarce, ou equivoco, para encobrir a realidade dos grandes e desumanos interesses que movem as engrenagens do atraso, como por exemplo essa reunião dos carvoeiros na Polônia, onde não faltará o vozerio desarrazoado de Donald Trump, o pregoeiro do obscurantismo.

A defesa do meio ambiente não gera ameaças de ¨desnacionalização¨ da Amazônia, não impede o crescimento racional do agro- negocio, a expansão da economia.

A ausência de sensibilidade, o desconhecimento, a desconexão com os avanços tecnológicos e sociais, é que nos farão reféns de interesses que não são os nossos, e nos desnacionalizam, e nos descaracterizam como Nação.

 

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