Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor, ambientalista, membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Além desse blog, é colunista do Portal F5 News.
FILHOS DOS PRESIDENTES GENERAIS E OS TRÊS DO PRESIDENTE CAPITÃO
17/02/2019
FILHOS DOS PRESIDENTES GENERAIS  E OS TRÊS DO PRESIDENTE CAPITÃO

No período ditatorial ou autoritário em que fomos governados por cinco generais, todos, foram pais de filhos mulheres e homens. Castello Branco, o que inaugurou o ciclo após o golpe de março de 64, tinha um filho único. Era Capitão de Mar e Guerra, e no tempo em que o seu pai governou, ele permaneceu normalmente exercendo suas funções na Marinha. Raramente era visto em Brasília, e nunca interferiu no governo. Sequer aparecia na mídia. Vivia discretamente afastado do mundo do poder.

Castello Branco era viúvo, e muito se comentou sobre a atração que o levava a frequentar teatros, especialmente se em cena estivesse a fascinante atriz Tônia Carrero, dona do rosto que seria o mais belo do Brasil.

Castello tinha amigos intelectuais, muitos, integrantes da Academia Brasileira de Letras, e devotava atenção especial à escritora Rachel de Queiroz, sexagenária e casada. Quando já ex-presidente ele morreu num acidente aéreo, viajava num pequeno monomotor vindo da fazenda Não Me Toques, no sertão cearense em direção à Fortaleza. A fazenda pertencia a Rachel de Queiroz, que o convidara.

Da intimidade do poder só escapavam para a maledicência saborosa e popular, ou para as insinuações leves que a imprensa podia fazer quando a censura legalmente ainda não existia, esses potins, mais comuns em colunas fofoqueiras. Os jornalistas travados pelo medo, calculavam prudentemente até aonde poderiam ir.

O general Costa e Silva que também logo tornou-se Marechal, beneficiado pela pegajosa adulação do que restara do Congresso, diferia muito do comportamento formal e rigoroso do seu colega de turma Castello Branco, de quem fora ministro do exército, e a ele se impôs fazendo-se sucessor, com a força das baionetas que já estavam eriçadas e prontas para levá-lo ao Planalto, ainda que fosse sentado sobre elas.

Costa e Silva era jogador compulsivo, e como não tinha dinheiro para honrar as apostas que fazia, indo muito além do seu soldo, quando era comandante do II Exército em São Paulo, tinha uma outra colega do pano verde na pessoa da senhora mãe de Paulo Maluf, controladora do grupo Eucatex, sempre solicita em zerar as dívidas do general. A melhor forma que ele encontrou para corresponder a tanta generosidade da matrona, foi seguir o provérbio : “Quem a boca do meu filho beija a minha adoça". E o primeiro beijo que Maluf recebeu foi a Prefeitura de São Paulo. Dai em diante.............

Dona Yolanda, esposa de Costa e Silva, era um tanto espalhafatosa. Adorava aparecer nas colunas sociais, e o mais bem sucedido nesse gênero na imprensa carioca, antes, fora um fotógrafo que rabiscava com dificuldades, no reverso das fotos, algumas referencias sobre as cenas ou as pessoas retratadas, e foi fazendo amizades no chamado high society. Chamava-se Ibrahim Sued, e já se tornara o analfabeto mais festejado do país. Ele começou a incensar a elegância, o glamour, certamente outonal de Dona Yolanda, aproximou-se do casal e começou a profetizar que “Seu Arthur seria o futuro presidente do Brasil". Ai começou-se a levar em conta que aquele era o prenome do general ministro, que se intitulara, em abril de 64, “comandante supremo da revolução democrática”.

Sobre Costa e Silva, no bojo de duras revelações que faz no seu livro 'Memórias de um Revolucionário', o general Olympio Mourão Filho diz, que se conhecesse antes como veio a tomar ciência depois, sobre qual era o caráter de Costa e Silva, não teria permitido que ele assumisse o comando da revolução, e marcharia com suas tropas do estádio do Maracanã onde ficaram acantonadas, até o Ministério da Guerra, para de lá expulsar o usurpador, conselho, aliás, que lhe fora transmitido pelo amigo ex-presidente Juscelino Kubitscheck. Sobre essa sua ingênua displicência, Mourão disse depois: “Em matéria de política sou uma vaca fardada".

Se o atual vice presidente, o general Mourão, tiver algum parentesco com o outro Mourão de 1964, dele, não teria herdado nada daquele suposto sangue “vacum", porque, nas circunstancias atuais tem sido um animal político, na perfeita caracterização de Aristóteles.

Mas o que estamos mesmo aqui a comentar é sobre filhos presidenciais.

Costa e Silva e dona Yolanda tiveram um só filho, Álcio Barbosa Costa e Silva, que seguiu a carreira do pai no exército. Chegou a coronel, e pediu a reforma quando o pai assumiu o poder. Era engenheiro, e montou uma empresa de consultoria no Rio de Janeiro.

Quando houve a crise provocada pelo general Lyra Tavares, que expulsou do Exército e com execração publica o coronel Francisco Boaventura Cavalcanti, acusado de alta traição à pátria, por ter conspirado para dar um golpe e levar o jornalista Carlos Lacerda à presidência. O militar ofendido na sua honra era irmão do ministro do interior Costa Cavalcanti, também militar, e os dois tinham muito prestigio na tropa.

O general Moniz Aragão, tido como um líder com grande estatura moral, fez uma duríssima carta ao seu superior, o general Lyra Tavares, e entre outras pesadas acusações disse que um cunhado do presidente Costa e Silva “um conhecido traficante", fora nomeado para dirigir a Legião Brasileira de Assistência, e o filho do presidente, o engenheiro Álcio, “circulava com desenvoltura nos meios empresariais e financeiros".

Não explicou o que seria essa “desenvoltura", mas, as repercussões da crise teriam apressado o acidente vascular cerebral que vitimou o presidente Costa e Silva. Tudo isso aconteceu sob o império do feroz Ato Institucional nº 5, que dava poderes quase totalitários ao presidente.

Quando Costa e Silva sofreu o AVC, perdeu a fala e depois os movimentos, o general Portela tornou a doença um segredo de Estado. O filho do presidente, Álcio, vivia tão afastado das coisas de Brasília que só veio tomar conhecimento da doença do pai quando ele foi transportado quase secretamente, de Brasília para um hospital no Rio, e sua mãe, dona Yolanda, lhe telefonou para informar-lhe, reclamando que até dela haviam escondido o caso. Portela queria evitar que o vice-presidente, o honrado jurista Pedro Aleixo, se apresentasse para substituir o presidente impedido. Depois, Aleixo recebeu o ultimato: “Ficar no Rio e permanecer tranquilo, ou ir a Brasília e ser preso".

Não haveria sequer quem lhe desse posse, pois o Congresso estava fechado. Assim, assumiu uma Junta Militar com os três ministros das três armas, um trio a que Ulisses Guimarães numa das suas raras manifestações sem elegância, denominou de os "três patetas".

O general Emilio Garrastazu Médici, (que logo suprimiu o complicado nome basco, ficando apenas Médici, uma sugestão do seu quase genial marqueteiro o coronel Otávio Costa) era um homem taciturno, fechado, face ríspida, que dificilmente sorria ou descontraia-se em gestos de afabilidades. Governou com mão de ferro, no tempo em que se exterminavam os quase desarmados guerrilheiros nas selvas, e aqueles que pareciam bem treinados combatentes urbanos. A chamada “ameaça terrorista" foi esmagada, e o país viveu o que logo foi apelidado de "milagre brasileiro". O general Médici era gaúcho, tinha dois filhos, um economista outro engenheiro.

Eles muito raramente iam a Brasília, e continuaram vivendo no Rio Grande. Tempos depois, acabado o regime militar, Garrastazu Médici faleceu, e durante o velório chegou o ex-presidente João Baptista Figueiredo para levar condolências à família. Um dos seus filhos então surgiu pela primeira vez no noticiário nacional, porque expulsou do recinto o ex-presidente, chamando-o de “canalha e traidor".

O general Geisel, um luterano rigoroso e militar com postura prussiana, traços talvez da sua ascendência germânica, teve dois filhos, um morreu ainda menino, atropelado por um trem quando a família residia no entroncamento ferroviário de Santa Maria, Rio Grande do Sul, onde Geisel era um jovem capitão. A perda lhe marcara para o resto da vida, e os amigos a isso atribuíam a sua indisfarçável melancolia. Sua filha Luci, solteira, nunca separou-se dos pais. Era intelectual, funcionária da FUNARTE, mas permaneceu no Rio quando o casal Geisel se transferiu para morar no Palácio da Alvorada. Luci Geisel apreciava a musica, frequentava ambientes intelectuais, e isso fez com que Chico Buarque de Holanda compusesse aquela música onde surge a observação sarcástica : “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Discreta, Luci inclusive esteve em Aracaju, cumprindo atividades ligadas à FUNARTE, hospedou-se em hotel, dispensou qualquer aparato de segurança, e no Encontro Cultural de Laranjeiras circulou pelos bares tomando discretamente uma cachacinha com caju. Luci jamais ousaria intrometer-se nas atividades do pai, que, aliás, tinha a exata consciência do que é ser um Estadista.

O general Figueiredo era um homem carrancudo e usava óculos escuros enquanto chefiava o Serviço Nacional de Informações, o SNI, o órgão que se teria transformado num "monstro", segundo definição do seu próprio criador arrependido, o general Golbery do Couto e Silva, um habilidoso estrategista a quem o jornalista Hélio Gaspari apelidou de "feiticeiro".

Um tanto avesso a protocolos, ele tinha gestos incomuns, e que marcaram o seu governo. Dizia-se que tinha incontáveis amantes. E em algumas noites saia a visitá-las montado numa potente motocicleta, com roupa completa de motociclista e vistoso capacete.

Deu sequencia segura ao processo de abertura democrática iniciada por Geisel, e cumpriu à risca os compromissos que assumira perante a Nação, chegando a dizer, certa feita, quando havia manifestações de desagrado em alguns setores militares e civis radicais: "É pra abrir mesmo, e quem quiser empatar eu prendo e arrebento".

Dois dos irmãos de Figueiredo chegaram, como ele, ao generalato de quatro estrelas, exerciam comandos importantes, mas, nunca interferiram publicamente no processo político. Um outro irmão era dentista, tinha vida simples de qualquer cidadão comum, e um outro, Guilherme Figueiredo, era escritor, teatrólogo, e foi Reitor da UFERJ, a universidade do governo do estado do Rio de Janeiro.

Um dos seus livros mais populares foi 'O Tratado Geral dos Chatos', onde faz uma critica viperina à personagens que se caracterizavam pela antipatia, algo assim, como esse “pensador” Olavo de Carvalho, e os ministros da Educação e do Exterior. Sobre estes, com certeza, Guilherme aplicaria a sua afirmação a respeito de Plínio Salgado, líder dos chamados "Galinhas Verdes" os Integralistas. Disse Guilherme Figueiredo: “Plínio, além de chato, tem cara de piloto de provas de fábrica de supositórios".

Já em relação à Ministra Damares, certamente Guilherme Figueiredo não teria nada a dizer.

Ele não era psiquiatra.

Guilherme também veio ao anual Encontro Cultural de Laranjeiras, evitou publicidade, recusava-se a fazer comentários políticos, e dizia que não era irmão do presidente, o presidente é que era irmão dele, por ser mais velho. Impressionou muito bem aos que o ouviram na palestra que fez, pela cultura, a simplicidade, e um fino e atilado senso de humor.

Junto com Guilherme veio uma jovem funcionária da FUNARTE. Era escritora, com sonoro nome: Irene Rodrigo Otávio Moutinho, cativante pela cultura, a fluência em vários idiomas, a primorosa execução e caprichado repertório ao piano, e um sorriso, digamos assim, loquaz.

O titulo de um dos seus livros: Até Agora Nada.

Irene sugeriu o nome de um semanário aracajuano que surgia na época: O QUÊ. O jornal durou exatos quinze anos.

Os filhos de Figueiredo quase passaram à margem dessa conversa circunstanciada sobre os “meninos” dos generais presidentes.

Eles eram cordatos, sabiam que o poder não se pode exercer em família, afinal, o Brasil é uma república onde não há Príncipes Herdeiros, Infantes, nem Delfins. E assim passaram respeitosamente despercebidos pela história do seu tempo, pelos círculos do poder que arrodeavam seu pai poderoso, não causaram-lhe constrangimentos, nem lhe comprometeram a autoridade.

Esses filhos de generais presidente foram todos sensatos.

Já os rapazes do capitão-presidente, a quem o Vice Presidente, general Mourão, sugere que sejam contidos pela autoridade paterna, e maior autoridade do país.

Há uma frase, entre tantas outras, do exímio fazedor delas que era Tancredo Neves, e aqui a lembramos, talvez por oportuna: “Aprendi uma coisa importante para a vida. O símbolo do poder cai com uma rapidez incrível".

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