Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências.
Além desse blog, escreve duas páginas dominicais no Jornal do Dia.
DE ONYX LOREZONI A LULA DA SILVA E A ¨JURISPRUDÊNCIA¨ DO EX-JUIZ
24/11/2018
DE ONYX LOREZONI A LULA DA SILVA E A ¨JURISPRUDÊNCIA¨ DO EX-JUIZ


O deputado Onyx Lorenzoni investigado por ter recebido ¨doações¨ da Odebrecht via Caixa-2, comportamento tão criminalizado pelos integrantes da Lava Jato, foi, ao que parece, até agora o único denunciado a articular um tímido pedido de desculpas.

Hoje, Onyx é colega do ex-Juiz Sérgio Moro na equipe dos ministeriáveis do presidente Bolsonaro, e poderia gerar constrangimentos ao magistrado que comandou as ações rigorosas contra os envolvidos no assalto à PETROBRAS. Ingressando inopinadamente na política, Moro decidiu encerrar uma carreira que o levou ao ápice da fama como implacável algoz de corruptos.

Mudou o tom, diante das novas circunstâncias, e minimizou o crime de Onyx, alegando que ele já pedira desculpas. Se magistrado ainda fosse, Moro estaria inovando, e criando uma ¨jurisprudência especial¨ para aqueles que pedem vênias pelos deslizes que admitem tê-los cometido.

Os principais envolvidos que comandaram o saque, tornaram-se delatores, não foram perdoados, mas, tiveram as penas atenuadas, e trocaram a cadeia pelas tornozeleiras, que usam no conforto das suas moradas luxuosas. Nenhum chegou a pedir perdão ao povo brasileiro. Aliás, o habito de pedir perdão é atitude inédita entre brasileiros ocupando cargos públicos, e denunciados por práticas ilícitas.

Quem teria noticia de que um Paulo Maluf, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geddel, Dirceu, todos condenados e cumprindo penas, tivessem, em alguma ocasião, pedido desculpas públicas, ou até perdão pelos erros cometidos?

Esse tipo de comportamento chega a ser comum em diversos países, quando homens públicos geram escândalos e vão parar nas prisões.

No fundo todos naturalizam os crimes que praticaram, atitudes recorrentes, sempre cometidas ao longo da nossa história, variando, apenas, na escala em que ocorriam, chegando, enfim, ao descalabro registrado. Por isso, até se definem como ¨vítimas do sistema¨.

Ao ex-presidente Lula que está preso, faltou exatamente a sensibilidade para entender o tamanho da tempestade política que se formava, no instante em que começou a operação Lava Jato, e logo depois multidões indo às ruas, na mais numerosa sequência de protestos populares ocorridos no país. Se tinham por trás deles a instigação de grupos interessados, o pato amarelo da FIESP, as manobras comandadas na Câmara por um seboso, aliado a outro, ocupando o Palácio do Jaburu, nem por isso, tudo seria minimizado na palavra tola que encontraram para definir os manifestantes: ¨coxinhas¨. A presidente, que nunca foi presidenta, nem coisa nenhuma, desabava por inércia, ou total inaptidão para o cargo, onde Lula resolveu erradamente colocá-la, quando   deslizava fácil numa popularidade de quase 80 por cento.

A euforia do sucesso, a sensação inebriante do poder que ele e a companheirada desfrutavam, talvez o tenham levado a perder a sintonia com o Brasil real.

Preso, aos 73 anos de idade, e ainda apesar de tudo conservando uma liderança forte sobre considerável parcela de brasileiros, Lula se viu diante daquele raro e crucial momento em que o condutor de uma Nação, como ele fora, deveria assumir a responsabilidade diante do seu país, do seu povo.

Teria então de reconhecer, numa carta dirigida aos brasileiros, os erros que ele próprio e o seu partido haviam cometido,  e pediria desculpas à Nação, deixando claro que não o fazia para obter algum beneficio pessoal,  e iria mais além, declarando que sua carreira política estava encerrada, que não seria mais candidato, mesmo se fosse solto, e  aconselharia  o seu partido a não lançar candidato à presidência da República.

Poderia defender a sua inocência, a sua honestidade pessoal, até denunciar a injustiça de estar preso, não sendo dono nem do tríplex no Guarujá, nem do sítio em Atibaia, mas, reconhecendo que falhou ao formar um governo de coalizão   atendendo à ânsia patrimonialista dos que foram cooptados. E essa falha ou calamidade, pode ser vista com as digitais bem claras, de todos os que participaram do assalto organizado aos cofres da PETROBRAS.

Lula iria mais longe, faria um apelo pela pacificação política, e diria que o seu gesto representaria a contribuição pessoal para que o clima de ódio fosse amenizado.  Faria isso, e, recolhido à sua cela, se reservaria, porém, como cidadão, ao direito de exercer o protagonismo possível, nos momentos em que a sua palavra pudesse servir aos interesses maiores do povo brasileiro.

O clima de ferocidade política começaria a dissipar-se, e os extremismos se aquietariam.

Mas aqui, apenas devaneamos, não se pode exigir que a mediocridade se transforme, de repente, em sabedoria e discernimento. Raros os seres humanos, e entre eles os mais poderosos, que se revelam   personagens providenciais, influenciadores e condutores da busca pela razão. Dai porque, em todo o mundo, no século passado, não chegamos a ter uns dez grandes estadistas.

O general Charles de Gaulle sem dúvidas terá lugar entre eles.

Houve tempo em que o ¨Grand Charles¨ confundia-se com a própria França, tal o carisma, o poder, e a autoconfiança que tinha.

Líder da resistência francesa, salvou a honra da nação, e entrou em Paris junto com as forças aliadas no dia da libertação em 1944, após o exilio em Londres desde 1940, quando a França capitulou.

 Em 1968, num terceiro mandato, governava um país outra vez em tumulto. Em maio, as ruas de Paris encheram-se de manifestantes, que depois se espalharam por todas as cidades maiores. Queriam o impossível, pregavam a derrubada de todas as instituições, e o inicio do poder popular. Eram comunistas, anarquistas, niilistas, bagunceiros, idealistas puros? Ninguém sabia ao certo. Mas a França desintegrava-se.

De Gaulle sumiu do Palácio Eliseu.  Viajou secretamente. Foi entender-se com os generais da extrema direita, que até haviam organizado atentados contra ele durante a guerra da Argélia. Eles comandavam as tropas de ocupação francesas na Alemanha. Assegurou a lealdade de todos. Regressou a Paris, fez o que era necessário. Controlou as ruas, devolveu a paz aos franceses. Compreendeu, porém, que o seu tempo passara, que os acontecimentos exigiam dele um ato de grandeza.

Recolheu-se à sua propriedade familiar em Colombey-les-Deux-Églises, onde nascera, e viveu ali os seus últimos anos. Mais uma vez, com grandeza de alma, salvara a França.

E escreveu nas suas Memórias: ¨Velho homem, extenuado por provações, desligado dos empreendimentos, sentindo vir o frio eterno, mas nunca cansado de espiar, na sombra, o clarão da esperança! ¨.

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