Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências.
Além desse blog, escreve duas páginas dominicais no Jornal do Dia.
BODE BITO, A JUSTIÇA, O TEMPO E O CONTEXTO
18/11/2018
BODE BITO, A JUSTIÇA, O TEMPO E O CONTEXTO

Em Riachão do Dantas um personagem caprino alcançou fama, e mereceu tanto carinho que até causava inveja no meio da sociedade humana onde vivia. Bode Bito era bicho inteligente, sagaz, oportunista, também carinhoso, e entendia de marketing. Soube promover-se a tal ponto que, morto, viu-se transformado em estátua. E não é uma estátua comum, dessas que as pessoas passam e nem as enxergam, ou, pior ainda, lhes lambuzam com tinta ou lhes tiram pedaços.

Bode Bito ia a Igreja, e todo contrito assistia missa, dizem até que um dia ajoelhou-se, quando o Padre fez a elevação do santíssimo sacramento.

Como deve ter sido esse ajoelhar quadrúpede?

Bode Bito sabia o horário da chegada dos ônibus, e ia até a rodoviária recepcionar, pinoteando, aos que chegavam. Também acompanhava procissões, e os cortejos fúnebres.  No cemitério, ao baixar os caixões à terra, um dia, juram alguns, que o viram verter furtivas lágrimas caprinas.

Bito tinha personalidade própria, fez sozinho a sua história, construiu livre de interferências humanas o seu currículo pessoal, onde estão as suas habilidades, por ele mesmo descobertas e exercitadas.

Outros bichos famosos devem a notoriedade alcançada à fama e gloria dos seus donos.  Incitatus, foi o cavalo que Calígula transformou em Senador, numa ¨deferência¨ especial aos vetustos e nobres integrantes do Senado Romano.  Bucéfalo, o cavalo que montou Alexandre o Grande. Ainda o ¨cavalo branco¨ de Napoleão, guardado em estrutura envidraçada nos Invalides, o museu das glorias militares francesas. É um acanhado equino q bem servindo às pernas curtas do ¨Pequeno Corso¨ que o montava, e deu-lhe o nome de Vizir. Bonaparte, conquistador, era também globalizante, mente avançada em muitos aspectos para a sua época. Na palavra árabe que designa uma grande autoridade, ele foi encontrar, na cultura sarracena, a raiz etimológica que também significa carregar fardos, ajudando ao povo. Um simbolismo sempre a ser lembrado e meditado.

No turbilhão desses desencontros político-partidários que têm marcado a infeliz vida pública do Riachão dos Dantas, o prefeito interino, aguardando o retorno ou cassação definitiva de uma polêmica prefeita, resolveu mexer na escultura metálica ou pétrea, eternizando Bito, e no seu lugar entronizou a imagem da santa padroeira do município. Houve discordâncias, acaloradas divergências, e uma representante do Ministério Público resolveu meter a colher da autoridade na querela popular.  Lembrou, enfática, que o prefeito era apenas eventual, transitório, passageiro, e pôs em dúvida a sua competência para envolver-se em assunto tão controverso. Recomendou a volta de Bito ao seu lugar de origem, e o mesmo a fazer com a santa.

Ainda há controvérsias.

Mas, indo um pouco além da questão caprina, e ousando alcançar o cerne do protagonismo promotorial,  envolvendo bípedes inteligentes, e um só quadrúpede, dito irracional, caberia a pergunta: Onde estariam aquelas imperceptíveis fronteiras a delimitar competências, atribuições, responsabilidades, legitimidades, entre a abrangência do Parquet e os  eleitos para governar, sendo até mesmo interinos, porque a interinidade delimita o tempo, mas mantem a integralidade da competência.

Saindo do bode Bito, vamos até o Tribunal Superior Eleitoral em Brasília, apenas, para constatar um desses episódios da Justiça que nos leva a meditar sobre a perda da racionalidade, que, segundo o sempre sensato e atualizado ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, é um dos graves problemas do momento vivido pelo Brasil.

Luciano Bispo, ainda deputado, cumpriu na sua administração da Casa como seu presidente, um mandato exemplar. Reconstruiu a imagem devastada do nosso Legislativo, deu-lhe protagonismo, presença, refez o sentimento popular sobre a característica democrática da chamada Casa do Povo. Levou ao debate temas relevantes da nossa conjuntura presente, e deixou os escândalos recentes quase inteiramente esquecidos, pela mudança de rumos, pela forma como se relacionou com todos os poderes.

Fez mais ainda, arejou a política sergipana, dela retirou-lhe os ranços que ainda a contaminavam, e especificamente na sua terra, Itabaiana, tão polarizada, abriu perspectivas para uma convivência respeitosa. O momento mais marcante foi quando, no ato simbólico de devolução de mandatos cassados pelo regime autoritário, entregou, ele mesmo, o diploma recuperado aos filhos do ex-deputado Francisco Teles de Mendonça, o Chico de Miguel, seu adversário, e naquela época até inimigo. Enfim, Luciano é um político que ajuda a civilizar o cenário da vida publica sergipana.

Mas ele agora está cassado, direitos políticos suspensos por oito anos, apenas terminará o seu atual mandato, e já tendo sido reeleito para o próximo, e também reeleito para presidir a Assembleia.

 Em Brasília entenderam que ele deveria ser punido por crimes eleitorais cometidos na eleição em que conquistou o atual mandato, que termina este ano.

Que lentidão, que ritmo é esse que guarda num baú aquela decisão que deveria ter sido proferida  há quatro anos passados e a profere agora, punindo a conquista de um novo mandato legítimo sem contestações, e fazendo letra morta da decisão  quase unanime da Assembleia Legislativa ao reeleger Luciano Bispo, que deveria, por decisão soberana da casa continuar no próximo biênio a dirigi-la.

De que valerá então a independência e harmonia entre os poderes, a legitimidade do voto, se a Justiça brasileira, pela sua arrastada e preguiçosa prática, a tudo isso ignora, a tudo isso despreza, e até afronta?

Que tal trocar da frente dos tribunais aquela imagem da Justiça, cega, muda e surda, pela do Bicho Preguiça, aquele lento, pachorrento, pesadão, e ignorando o mundo frenético em volta dele?

A do bode Bito não serviria. Ele era lépido, cabriolante, leve, ligeiro, e tão sensato, que ao ser servido nos bares, limitava-se a sorver, elegantemente, apenas um copo de cerveja.

OS MAIS MÉDICOS E OS MENOS MÉDICOS

Gostando-se ou não de Dilma, e a grande maioria dos brasileiros não a aprecia,  gostando-se ou não de Cuba, e a grande maioria dos brasileiros é simplesmente indiferente aquele país, assim, de uma forma ou de outra, terá de ser reconhecido que esses quase dez mil médicos cubanos que para aqui vieram, deixaram um sentimento de respeito, gratidão e reconhecimento nos mais longínquos pontos deste país onde foram postos a trabalhar.

Substituí-los não será tarefa fácil, e em consequência de um viés ideológico que o presidente eleito diz combater, mas que ele próprio o alimenta, numa posição diversa e extrema, os médicos estão retornando à Cuba. Por aqui não temos médicos disponíveis para substitui-los, muito menos dispostos a morar nos ¨cafundós do Judas¨ onde os cubanos estavam.

Contra os médicos cubanos levantaram-se toda sorte de preconceitos. Eram mal treinados porque a medicina em Cuba seria velha, atrasada, eram, o que é pior, comunistas, e poderiam vir subverter a nossa paz, a nossa convivência cristã e civilizada. Tão cristã, tão civilizada, que estaria vulnerável ao contágio perigoso do discurso ideológico marxista, de solertes agentes do comunismo internacional, envergando jalecos brancos, e com o vermelho nas suas almas.


Parece até que ainda estamos nos tempos da Guerra Fria, que o império comunista soviético ainda existe, que o Muro de Berlim não desabou sob o impacto da ânsia de liberdade, de viver, e de se exprimir, e fazer na vida as próprias escolhas.

Seriam os médicos comunistas, socialistas, anarquistas, esses ismos, que, ressuscitados agora, continuam a despertar paixões, e fanatismos absurdos e anacrônicos. Ressuscitam também o fascismo, um outro ismo, entre aqueles que marcaram desastrosamente o século passado.

Na verdade, o grande ISMO que nos deforma, que nos faz insensatos,  que altera os padrões de vida das sociedades em todo o mundo, é o consumismo, aquela exacerbação da vontade incontida de ter, mais e mais, todo tipo de produto, toda moda novidadeira que surja, toda inovação tecnológica que aparece e causa o frêmito de comprar, de possuir, de usar, de gozar dos deformados prazeres que nos proporcionam, como o de ter a cada anos o novo celular com virtualidades anunciadas, das quais nem tomaremos conhecimento, até que surjam outras novas, entupindo as lojas, gerando enormes filas, despertando as ânsias das Black Fridays. É por isso que será difícil levar médicos, mesmo recém-formados ao interior desassistido.  Todos eles, como de resto as sociedades da pós-modernidade, ou das inconformadas com a pré-modernidade, como é o nosso caso, não querem ficar distantes do alcance do consumismo.

Enfim, é sobre esse ismo, que devemos mesmo começar a meditar.

 

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