Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa, é jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências.
Além desse blog, escreve duas páginas dominicais no Jornal do Dia.
A GLOBO, DO TIME-LIFE AO "VIÉS COMUNISTOIDE"
01/12/2018
A GLOBO, DO TIME-LIFE AO

A TV-GLOBO surgiu sob as bênçãos do regime autoritário instalado no país em abril de 1964. Tudo foi facilitado para que se concretizasse uma meta empresarial traçada pelo jornalista Roberto Marinho.

Ele antevia o fascinante espaço que se abria para um canal de TV batizado sob as águas lustrais esparzidas pelos sacerdotes da República fardada, que casavam o novo veículo com a ideia de ¨integração nacional¨. Essa ideia, um coronel engenheiro, Euclides Quandt de Oliveira, começara a por na prancheta. O que Rondon iniciara, o que os aviadores do Correio Aéreo Nacional, o trem de ferro, o caminhão, e a navegação de cabotagem tentavam fazer para cobrir as distancias brasileiras, Quandt faria, depois, como Ministro das Comunicações, espalhando torres de micro-ondas de 50 em 50 quilômetros.

O país iria integrar-se pela comunicação simultânea, e à Rede Globo foi atribuído esse papel. Em 1966 entrava em operação a TV-Globo. Foi beneficiada com favores generosos, entre eles a isenção das taxas de importação, e o acesso a um câmbio especial. As suas principais concorrentes capengavam, por incompetência empresarial, ou retaliações que sofriam por serem vistas com desconfiança pelos militares.

O império dos Diários Associados começava a naufragar. Eram 18 emissoras de televisão, 36 rádios, 34 jornais, o último deles o Diário de Aracaju. A chegada a Sergipe de um elo da cadeia Associada, trouxe alguma modernidade para a capengante imprensa local, que misturava idealismo, fervor político-partidário com

 Ingênuo desconhecimento das ¨regras do mercado¨.  E Assis Chateaubriand, o criador do império, ditava a sua regra sem escrúpulo ou hipocrisia: ¨Veículo de comunicação vende espaço publicitário pela tabela, e a opinião ou o silêncio a gente fixa o preço¨.

Roberto Marinho acrescentaria: ¨O silêncio é mais importante do que a opinião¨. Na ditadura essa era uma regra de ouro.

O paraibano Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, o Chatô, montara seu complexo de empresas, entre elas indústrias, fazendas, com ousadia, genialidade, e também cafajestice. Mas ele era um cafajeste generoso, desprendido, capaz de esvaziar o próprio bolso e chantagear tantos outros mais recheados do que os dele, para que contribuíssem, por exemplo, para tornar possível a ousada ideia do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MASP.

Em 1950 ele inaugurou em São Paulo a TV-Tupy, a primeira do Brasil. Era um empreendimento caro, e inviável, segundo famosos economistas na época. Tudo foi importado, ou melhor, contrabandeado. Se fossem obedecidas as regras da burocracia brasileira, a coisa levaria dez anos.

Dois anos depois, o presidente Getúlio Vargas assistia o primeiro programa de mais uma Tv-Tupy, agora, no Rio de Janeiro. O aparelho de TV fora uma doação ao Palácio do Catete, feita, cinco anos antes, por Chateaubriand. O então ocupante do palácio, o presidente Eurico Dutra, sabia que a TV fizera parte de um lote contrabandeado, porque as leis brasileiras não permitiam tal tipo de importação.

Chateaubriand não conseguiu impedir que a TV-Globo fechasse um acordo operacional com o grupo americano Time-Life, e já ciente de que Marinho vencera a parada, antes de morrer, em maio de 1966, raivoso com o marechal Castello Branco que não o atendera, já repartira  o seu império entre os principais colaboradores, que se tornaram condôminos. 

E os Associados morreram, pela rapinagem dos condôminos, e pela disposição revelada pelo governo em liquidá-lo, cobrando a montanha de impostos nunca antes recolhidos.

A TV-Excelsior, que se atreveu a ter alguma independência, e fez a proeza da primeira transmissão simultânea Rio-São Paulo, foi meticulosamente esmagada, junto com outras empresas do grupo, a Panair do Brasil, o Banco Noroeste, e a COMAL, maior exportadora de café do mundo. O dono do grupo, Mário Wallace Simonsen matou-se num Hotel luxuoso da Riviera francesa. A conspiração civil militar que o abateu, deu mais fôlego à TV-Globo, que ficaria dona quase exclusiva do mercado.

A Rede Globo mereceu do general-presidente Médici, o maior dos elogios. Disse ele: ¨Toda noite quando assisto o Jornal Nacional, e vejo o que acontece pelo mundo, fico satisfeito porque o Brasil está em paz¨. Era o melhor prêmio para o silêncio, a regra de ouro de Roberto Marinho.

Só um dos presidentes militares fez cara feia para Roberto Marinho. Foi o general Figueiredo, de quem o dono da Globo ouviu: ¨Vou botar mais concorrentes na praça, a Globo está grande demais¨. Assim Sílvio Santos ganhou o SBT de presente.

Depois de ser satanizada por uma parte da esquerda, que a classificava como ¨instrumento do imperialismo americano¨, a Rede Globo agora desperta animosidades entre  amplos setores da sociedade que resolveram promover uma cruzada moralista em relação aos costumes, e enxergam na emissora um ¨um certo viés comunistóide¨, os efeitos deletérios da ¨doutrina de Gramisci¨, tudo convergindo para a dissolução moral das famílias brasileiras.

Tratam de desenterrar cadáveres, e ficam amedrontados com as suas caveiras.

O presidente Bolsonaro, quando candidato, chegou a dizer que cortaria as verbas publicitárias para a Rede Globo. Já existiriam negociações com a Televisa, mexicana, e se forem completadas, haveria a desnacionalização completa da nossa maior e mais influente rede de comunicação.

A rede Globo tem conceito internacional, acumula prêmios que deveriam nos orgulhar pela criatividade dos artistas, dos escritores, dos técnicos brasileiros. Emprega dezenas de milhares de pessoas e paga excelentes salários.

Parece que o sucesso nos incomoda, e nos desperta ódios irracionais.

 

 

Voltar